segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Pensar enlouquece, pense nisso

Sabe aquelas garotas que sempre andam com o cabelo preso e tem um olhar perdido em qualquer lugar que vai? Aquela que você encontra sem querer na padaria e fica entre o dar ou não um “oi”?
Outro dia desses encontrei uma menina assim. Aqui pra vocês, vou chamá-la de Marcella. E tanto faz se esse é ou não o nome dela, a Marcella é uma entre os outros bilhões de habitante usuários da internet, a probabilidade de ela ler esse texto é pequena demais. Além do que, ela não vai se importar. Enfim, não vamos nos ater nos detalhes. Não importa o título, mas a história.
Conheci a Marcella em um dia qualquer, em um lugar qualquer. Ok, na verdade, a conheci na cafeteria, quando ela –acidentalmente- pegou meu pedido no lugar do dela.
Logo de cara não gostei dela. Fala sério, quem gosta da pessoa que pega seu Mocca por engano? Mas olhando direito pra cara da Marcella, vi aqueles olhos perdidos e me encantei. E daí, pronto, viramos amigos.
Marcella é aquele tipo de menina que vive com a cabeça na Lua. Olha pra janela e pensa numa vida totalmente diferente, na qual ela é a mocinha heroína que salva o mundo do mal. Não se engane, aqueles olhos podem estar focados nos seus, mas os pensamentos da Marcella não têm nem uma parcela de você.
Ela olha pra janela e pensa naquela viagem que ela nunca vez, mas vai fazer. Pensa nos namorados que ela só namorou no pensamento e jura que pode te dar os melhores conselhos do mundo, mesmo só tendo vivido aquilo que se passou na sua cabeça. Ela pensa no enigma que seu próprio sexo é, e chega a conclusões malucas. Marcella gosta de teorizar.
A menina Marcella aprendeu a sonhar nos livros e não conseguiu mais se livrar do hábito. Viciou em ter uma vida imaginada e desde então descobriu que sonhar acordada é melhor que dormindo.  “Nos sonhos todo mundo diz o que eu quero que digam” ela me diz toda vez que brigo por ela não ter me ouvido direito. A menina Marcella gosta de olhar pela janela e inventar uma vida só dela:  linda, maravilhosa e irreal. Pra falar a verdade, nem da janela ela precisa.
Pensa em como vai ser aquele primeiro encontro. Pensa no recado que vai deixar na caixa eletrônica. Pensa nos beijos. Pensa nos presentes de Dia dos Namorados. Pensa na dor de perder o amor de sua vida - que foi minunciosamente pensado também, por favor. Pensa no texto que vai escrever depois de ter terminado o namoro. Pensa em como vai ser triste perder um ente querido. Pensa no trabalho que ela vai entregar na semana que vem. Pensa no romance mal resolvido que o cara do caixa do supermercado viveu. Pensa nos problemas da irmã. Pensa nos amigos que vai fazer naquele curso de inglês que ela vai começar. Pensa nos livros que ainda vai ler. Pensa nos pensamento que ainda vai ter. Pensa naqueles que já teve. Pensa, também, naqueles que não tem mais. Pensa, pensa, pensa.
Marcella pensa tanto, mas não pensou em viver.
E, por causa disso, pensou de novo em como seria viver pensando menos. Viver só pelo simples ato de existir. Sem sonhos acordados e “E se...s” imaginados. Marcella pensou que a vida deve ser menos complicada quando a gente só faz o que der na telha, sem pensar. Pensou em pedir conselhos para viver uma vida mais simples. Pensou em desistir e continuar do jeito que era. Pensou nisso tudo e decidiu deixar de pensar em cada passo.
Então, Marcella agora não tem mais os olhos perdidos que tanto me encantaram um dia. Ela deixou de pensar no amor da vida dela e, por ironia do destino, acabou encontrando o cara dos seus sonhos. Marcella agora não confunde mais os pedidos na cafeteria e não chama atenção por seus pensamentos desconexos. Agora ela presta atenção nos meus casos. Nos dela. E nos de todo mundo. Ela não fica olhando pro vazio e se perdendo em si mesma.
Marcella se encontrou.
Os olhos que ganharam minha amizade deram lugar aquele brilho de curiosidade que tantas outras pessoas têm, mas o dela é diferente. Tem aquele olhar tênue que passeia na corda banda entre a realidade e o sonho. Marcella deixou de ser a pessoa que roubou meu mocca, pra ser a menina que me olha nos olhos e tem, mesmo, bons conselhos pra dar. Sabe por quê? Porque ela viveu mesmo tudo aquilo que um dia imaginou. 

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