segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Volta às aulas

Aquela música da minha banda favorita está tocando no rádio. Meu pai está vestido com a calça do pijama e com uma cara de sono de dar dó, eu não estou melhor que ele: meu cabelo despenteado minha cabeça latejando e a mochila no meu colo já denunciam uma noite mal dormida acompanhada de um mau humor matinal. Nem a música consegue me animar.
A viagem no total dá menos que 10 minutos, mas mesmo assim pareceu ser uma eternidade quando levantei da cama, às 6:30, só para constar. Meus olhos cansados insistiam em me dizer que meu despertador estava errado, ainda era hora de dormir. Só que não era.
Depois de dois meses de pura procrastinação, sol, livros e Ipod, estava na hora de colocar a mala nas costas e ir para a escola. Aaah, a escola. Voltar pras provas, lições de casa, professores chatos e alunos dispensáveis, e , ao mesmo tempo, voltar pros amigos, gargalhadas e horas vagas preenchidas de brincadeiras bobocas.
Pouco antes de chegar ao portão o clima estudantil já entrava por meus poros e me dava náuseas, tudo estava um saco. Minha música tinha acabado e agora quem tomava conta do som era a voz irritante do anunciante, meu cabelo continuava bagunçado e o café não tinha feito o devido efeito no meu sistema nervoso. Cara, como eu odeio morar perto da escola. Desci do carro e dei tchau pro meu pai, que com sorte vai voltar a dormir, então me dirigi a passos nada apressados à entrada da escola. O cheiro, o visual e a barulheira característicos não me fazia ter vontade de ficar lá pra sempre, na verdade me causava ansiedade, e isso não é exatamente um sentimento bonito de se ver.
Só que ansiedade de quê?
Era o mesmo colégio, as mesmas paredes, professores e alunos. Era tudo igual a dois meses atrás, mas meu estômago cismou em dar cambalhotas com a proximidade do grupo dos meus colegas de classe. E, eles continuavam os mesmos. Aquela menina ainda tinha as pontas do cabelo descoloridas, a outra ainda estava namorando o mesmo cara, aquele garoto, que sentava na frente, continua com a mesma mania de falar mexendo as mãos e meus amigos continuam ali parados rindo de algo que alguém disse.  É como se eu nunca tivesse saído daqui.
E mesmo com todo esse cenário familiar, continuo com aquela sensação estranha de não pertencer aquele lugar, como se todos tivessem seguido em uma direção contrária a minha. A gritaria já não me confortava, tudo o que eu queria era o silêncio do meu quarto. Minha cama. Meu sono.
As novidades foram colocadas em dia, as fofocas já percorreram o prédio de ponta a ponta, a comida da cantina ficou mais cara e continua ruim, e meus professores continuam ignorando qualquer assunto que não seja vestibular.  E, eu, continuo querendo desesperadamente voltar para debaixo das cobertas.
O professor começou a falar as normas do ano lá na frente da sala, são as mesmas dos anos anteriores. Não me lembraria delas caso ele não repetisse, mas o simples fato de escutar as mesmas palavras de um ano atrás me entediam. Meus olhos querem se fechar e pra passar o tempo e espantar o sono olho pra janela. De lá posso ver a janela do meu quarto com a minha cama, meus livros, meus CDs e meu mundo. Nunca amaldiçoei tanto aquela vista estúpida, é sacanagem só poder olhar para o paraíso.
Duas aulas depois do início do ano letivo e já me cansei da falação interrupta dos meus colegas, já não tem mais nada de novo pra escutar ou falar. Férias, podem voltar. O resto do dia passa se arrastando e, ironicamente, minha casa nunca ficou tão longe.
Quase comemoro quando o último sinal toca e nem me importo com a correria em direção à saída. Agora, mais do que nunca, entendo perfeitamente o que aqueles adolescentes sentem. Porque eu sinto o mesmo. O carro do meu pai está lá parado, e o som continua tocando a minha música favorita, como se eu nunca tivesse saído do carro. Só que dessa vez a familiaridade me conforta e felicita. A vida é boa.
Porém, só foi boa até o carro parar na garagem e meu pai soltar a pergunta mais infame do dia "Como foi o primeiro dia de aula?" Normal, igual, sei lá. A pergunta foi inocente e carinhosa, mas a única palavra que grudou no meu cérebro cansado foi: primeiro. O primeiro de outros mais de 200 dias. Cara, amanhã tem mais. Ueba. Só que não.

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