quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Palavras olhadas

Acordei meio sem entender onde estava, mas foi só sentir seus braços em volta de mim que entendi tudo. Lembrei do cinema, do restaurante, da boate e da cama. Senti, mais do que vi, que você estava dormindo. A respiração calma e ritmada batia contra meu pescoço e me fazia ter vontade de te abraçar mais ainda. Só não o fiz por medo de te acordar, porque você fica lindo dormindo: despreocupado e solto. Fiquei te olhando só pelo prazer de te ver mais vulnerável, sem aquela capa de super-homem-contemporâneo-sem-medo-de-nada.
Não sei se foi meu olhar insistente ou o horário, já meio avançado, que fez você despertar devagar. Puxando-me para perto e murmurando um "bom dia" entre um bocejo. Naquele momento soube que você era lindo acordado também.
 - Já acordada?- Sua voz me pegou de surpresa, esse seu tom meio rouco, meio sonolento fez meu coração parar por um segundo, antes que pudesse responder:
 - Já é boa tarde, você sabe disso, né?
Você riu e me apertou mais ainda, tentado se aconchegar em mim. Não resisti ao sorriso que teimava em aparecer sempre que você estava comigo e, às vezes, até quando não estava.
 - E você sabe que hoje é domingo, né? - Você me respondeu displicente com um sorriso no rosto, apesar do sono. - Nós não dormimos nada na noite passada, que foi, diga-se de passagem, exatamente há quatro horas atrás.
Você tinha razão. Quase não dormimos nada, mas mesmo assim acabei acordando cedo. Ócios do ofício de quando se é jornalista e viciada em cafeína. Além do que, estava viciada em você: no seu sorriso, no seu beijo, no seu cabelo bagunçadinho, na sua mania de roer a unha. Xi... Já era tarde demais, eu era um caso perdido.
 - Vamos voltar a dormir, vai. - Você me disse isso subindo um pouco o corpo e juntando a testa na minha, os olhos continuavam fechados e as nossas respirações se misturaram. Só esse gesto e você fazia meu coração agir como o de uma adolescente apaixonada pela primeira vez.
Ri do seu jeito despreocupado, mas continuei com os olhos abertos, passando a mão pelo seu cabelo já bem bagunçado e tentando estabilizar a minha respiração, que insistia em se descompassar por causa da nossa proximidade.
Então, você abriu os olhos e me surpreendeu de novo. Nunca ia me acostumar com o tom verde e castanho que eles tinham, nunca mesmo. Morri o lábio inferior para não alargar demais o sorriso que estava por vir, mas você percebeu e sorriu de volta, simples assim.
Olhando nos seus olhos queria te dizer o quanto estava feliz ali, não pretendia ou queria estar em nenhum outro lugar. Olhando pra você, só pra você, queria dizer que obrigada. Obrigada por ter me aguentado durante todo esse tempo de relacionamento, obrigada por me aguentar fazendo teorias de tudo, por me deixar demorar escolhendo a comida, por me entender quando nem eu mesma conseguia. Estava grata por você estar ali comigo e demonstrar que queria estar comigo sempre. Grata pelo seus sorrisos, pelas gargalhadas, pelas ironias, pelos sonhos e memórias compartilhados.
Vendo seus olhos tão perto dos meus, queria te dizer que amo a cor indefinida deles. Dizer que me apaixonei por você como quem adormece: calma e lentamente, mas que mesmo assim sentia que meu coração não ia aguentar tanto amor tão rápido. Amor. Queria te dizer, também, que amo o seu jeito de passar a mão no meu cabelo, entrelaçar nossas mãos e fazer com que tudo seja mais fácil.
Queria te dizer o quanto incrível você é, o quanto te admiro por ser assim tão você. Queria te contar que confio em você cegamente, estou entregue ao amor que você me ensinou a gostar. É pra você que eu falo do meu dia, e é só sobre o seu dia que eu quero saber. Te contei meus medos, meus sonhos, minhas frustrações e perdas. Você me contou tudo de volta, e naquele momento, senti que você confiava em mim também.
Ali deitada na sua cama, com você olhando pra mim com seus olhos de cor indefinida, sabia que você me enxergava. Enxergava minha essência, meu coração, meus pensamentos e minha alma, por isso sabia que em todos eles só existia você.
Queria te dizer que te amo. Que te amei antes mesmo de te conhecer, e não precisava pensar no futuro para saber que te amaria lá também. Queria muito que você soubesse que meu sonho é você: amor.
Queria tanto poder te dizer isso olhando para os seus olhos, mas sempre que fico desse jeito com você, tão perto assim, me faltavam palavras. E adoro que isso aconteça.
Você me beijou sem desviar os olhos dos meus, me tirando dos meus devaneios bobos de menina frágil e apaixonada. Depois sorriu e disse:
 - Eu sei.
Quase chorei com essas palavras. Não precisei dizer nada pra que você entendesse tudo, tudo mesmo que se passava comigo. Quando perguntei o que você sabia, você abafou o riso e apenas me disse:
 - Eu sei que seus olhos te denunciam. Você não precisa dizer uma palavra, elas estão todas escritas em letras garrafais nos seus olhos, é só prestar atenção.
Não guardei meu sorriso, e continuei olhando pra você.
 - Mas mesmo assim daria uma moeda por seus pensamentos, gosto do modo quando seus olhos brilham enquanto você fala das suas teorias. Amo isso em você.
Ama.
E agora quem não queria dizer mais nada era eu. Fiquei olhando seus olhos para ver se encontrava algo a mais ali dentro. Nada. Você não se esconde por detrás dos óculos, na verdade, de mostra por inteiro. E ao mesmo tempo consegue ser o único enigma que não sei resolver. Mas, esqueci de todas essas teorias e pensamentos ao encontrar o seu sorriso debochado.
Você sabia.
Apertei mais o nosso abraço e beijei sua boca. Então, nesse nanosegundo, parei de pensar em tudo que queria dizer a você, porque seu cheio me deixava tonta e sua língua esvaziava minha mente. Deixei de querer te dizer tudo aquilo que disse com os olhos, porque podia fazer coisas muito melhores com a boca. E você sabia disso. Sempre soube.

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