domingo, 17 de agosto de 2014

Seu segredo

Olhei em volta e lá estava você.
Um copo de bebida, jaqueta de couro, óculos de aro redondo e bem definido, sapatos gastos, cabelo meio bagunçado meio arrumado, corpo de lado no batente da porta e o sorriso. Ah, é. O sorriso.
Esse era você sendo montado na minha mente aos poucos enquanto te olhava de longe na sala de estar. Não sei seu nome, endereço, razão social ou status de relacionamento. Não te adicionei no facebook. Ou adicionei? Não sei. Só sei que diferentemente de qualquer um naquela sala de estar -adaptada para pista de dança- você não me traz lembrança nenhuma, é um completo estranho no encontro de ex-alunos.
Não te conhecer me incomodou e trouxe, junto do incomodo, aquela sensação de interesse.
Tudo por causa do sorriso, aquela expressão facial que dizia tão pouco e zombava de mim. Meio torto, meio reto, meio feliz, meio contente, meio risonho, meio triste, meio sorriso, meio meio. Tantos meios juntos formaram o inteiro, foi esse quebra-cabeças que me fisgou. Não dei a mínima pro conjunto óculos, cabelo e jaqueta de couro, o que me fez olhar você foi o segredo que seu sorriso guardava.
O estilo bad-boy-que-não-liga-pra-nada não me convenceu, não caio nessa desde a época que o Marquinho ainda podia ter o "inho" no apelido sem parecer gozação. Assim como o Marquinhos que virou Marco Antônio, o doutor, deixei de ser a boba da turma, larguei o interior, comprei um passagem e fugi. E tudo isso veio com um preço, claro. Em troca da vida nova, abdiquei da antiga, dei a inocência da infância em troca de um pouquinho de experiência (sem conotações sexuais, por favor). Por isso, seu estilo arrebatador de corações não arrebatou o meu.
Entre um devaneio e outro você me olhou, acho que meu olhar frenético te chamou a atenção. Pronto, o sorriso agora é pra mim e eu não dou a mínima pros sinais de alerta que minha cabeça grita enquanto meus olhos não saem da sua boca. Você caminha em minha direção e continua com esse sorriso que me desafia a adivinhar o que você pensa. Mas, não consigo e isso me frusta. Não te conheço de antes e nem consigo saber quem você é agora.
Nós conversamos, é claro. Você perguntou meu nome e se apresentou como amigo de um amigo de infância meu - estava certa, não te conhecia mesmo-, depois fez graça com meu nome e sempre o usava como vocativo no início das frases. Não sei se por graça ou porque queria que só eu e você soubéssemos do segredo que você ia dizer. Você falou, falou, falou e nem por um instante seu sorriso foi embora.  E daí pronto, coloquei na cabeça que tinha que descobrir seus mistérios e a nossa conversa se multiplicou em uma, duas, três, quatro... Virou drink de depois da festa, jantares com direito a cinema e chocolates quentes com sorrisos, beijos e abraços de despedida.
E mesmo tempos depois, não descobri seu segredo. O sorriso que sempre, sempre, sempre te acompanha continua sendo seu mistério. Olhando do presente para o nosso tempo passado sinto que nunca cheguei nem perto de desvendar as curvas da sua boca, mesmo tendo insistido tanto em explorar todos os cantos dela. Não adiantou, devo admitir. Porém, minha jornada não foi em vão, posso não ter descoberto o motivo que acalentava aquele sorriso, mas encontrei milhares para acalentar os meus. Por isso, que agora, te olhando de longe como da primeira vez que te vi, sinto uma enorme gratidão por nunca ter me entregue a chave do mistério que te ronda. Olho para você como quem se despede, porque sei que dessa vez o sorriso não será para mim.

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